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publicado por berenice, em 03.04.10 às 23:22link do post | favorito

Lembro-me vagamente que ele, o meu tio, tinha olhos azuis e era fanfarrão. Convivemos apenas na minha primeira infância e ele atirava-me ao ar fazendo com que eu soltasse gostosas gargalhadas de bebé.

 Cresci longe dele; só nos víamos de tempos a tempos. Paulatinamente, fomo-nos tornando estranhos.

Eu sentia que ele achava que eu estava a ser educada e tratada como uma pequena princesa e que a minha redoma jamais seria tocada pela dor e pela humilhação.

 Mas o meu tio tornou-se um estranho até para os filhos. Sofria de um mal muito doloroso: uma angústia profunda, uma depressão constante, uma revolta indomável. Começou a beber. Bebia cada vez mais, de manhã à noite. Tornou-se intratável e ele próprio não se podia suportar. A família pretendeu dar-lhe tratamento. Insistia e ele concordava mas quando chegava a hora da verdade isolava-se no fundo de si mesmo, num estranho mundo em que ninguém podia penetrar.

 Um dia, foi para longe. Procurou uma capital europeia onde pudesse beber e ser desgraçado à vontade porque para se ser infeliz também é preciso privacidade. Um dia, fui lá. Por interposta pessoa pedi-lhe que me viesse ver pois não sabia em que esconderijo se encontrava o meu tio. O mensageiro voltou a acenar que não com a cabeça.

 Passaram alguns anos, não muitos. Eu sabia, todos sabíamos que ele vivia na rua. Mas ninguém o conseguiu ajudar.

Se o meu tio soubesse como esta "princesinha" mimada e bafejada pela sorte o entendia, talvez quisesse ver uma última vez aquela para quem escolheu o nome. Era meu padrinho, é verdade. E o meu padrinho morreu só, numa rua qualquer de Paris, gasto pelo frio, pela fome, pela dor.

Para ele vai hoje a minha oração da noite.

 


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