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publicado por berenice, em 20.12.09 às 20:30link do post | favorito

 Confesso que sinto uma incrível paixão pelos anos sessenta.

Muitas vezes me pergunto porquê e, como professora de História, sinto um pouco de vergonha por causa da ditadura e da guerra colonial. Eu própria senti na pele a forma acutilante como foram inculcados nas crianças os princípios necessários para o" correcto exercício da cidadania ". Nasci numa aldeia e, como em todas as aldeias, a Professora e o Padre eram figuras importantes para a percepção de "ondas maléficas" e para a manutenção da Ordem. A minha professora não me deixou saudades. Tinha cinquenta e muitos anos, umas pernas musculadas, uma cabeleira branca que atirava toda para trás com altivez e,  nos pés, umas sabrinas que a faziam parecer da família dos felinos. Diziam que se embebedava mas não sei se é verdade. O que eu sei é que perdia o controlo de tal forma que o rosto que ficava vermelho como um tomate e rilhava o dente e gritava. Batia à bruta mas só nas meninas que tinham uma família tão pobre e triste que ninguém pedia contas. Aí, desforrava-se e batia com a cabeça das moças no quadro, agarrando-as pelos cabelos. Ela própria ficava tão desalinhada como as vítimas. Mas deixemos a professora. Hoje, com a idade que ela tinha naquela altura, avalio-a como uma pessoa com grandes dificuldades de comunicação, muito só e muito infeliz. A esta hora já não está entre nós: paz à sua alma (Dona Manuela, só lhe peço perdão quando eu própria conseguir esquecer umas certas coisinhas que a senhora disse e fez. Tá bom assim?).

 Nos anos sessenta pairava no ar, no universo  em que eu me movia (porque havia muitos universos), uma ingenuidade que se manifestava desde  as canções que se trauteavam ou os escassos filmes que víamos até aos padrões dos tecidos com que mandávamos fazer as nossas roupas. Penso que toda a gente da minha idade se lembra da moda dos malmequeres ou dos vestidos que eram tubinhos de pintinhas brancas com fundo azul escuro ou preto. E tinham cabeção e gola com bordadinhos, que delícia!!!

 E quem não se lembra do filme "Música no Coração'" ? E os Festivais da Canção em que Portugal ficava sempre em último lugar? Sei quem ele é.... ele é bom rapaz, um pouco tímido até..(que estupidez)! E os quadros onde se escrevia a pontuação a giz eram simplesmente maravilhosos!

 Nos anos sessenta, para além desta ingenuidade fabricada, havia o que me apaixona de verdade: era a esperança e o terreno firme que pensávamos pisar. Quando namorávamos era a sério, o casamento era para sempre, se estudávamos era com determinado objectivo, não se falava de crise, não se falava de desemprego... mas talvez não fosse só isso. Que raio de magia é esta  que anda agarrada como uma lapa aos anos sessenta?!


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