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publicado por berenice, em 17.12.09 às 15:31link do post | favorito

 Sempre gostei dos meus momentos numa casa sem gente. Obviamente, prefiro que sejam apenas momentos pois, é assim, que posso entender melhor a energia que as pessoas deixam nas coisas, ou seja, a sua alma. Numa casa sem gente há um silêncio que se anuncia pleno de vida: é um silêncio que não chega a sê-lo porque um conjunto de pequenos, quase imperceptíveis ruídos povoam um espaço e um tempo que nos envolve. Não sabemos se é o frigorífico que zumbe e se impõe ou se é antes o relógio com o seu tic tac ou se o vazio, por si só, tem uma voz. Pessoalmente, não acredito no vazio.

  Quando eu era menina ia com frequência visitar a minha avó. Às vezes encontrava a porta aberta e ela não estava o que queria dizer que andava por muito perto e então eu chamava pondo as mãos em funil: "Veliiiiiii..." E a sua figura incontornável aparecia. Quando a porta estava fechada coma chave na fechadura queria dizer que ela estava um pouco mais longe: aí, eu dava a volta à enorme chave e esperava. Nessas situações  aproveitava o conforto que é sentir a alma das coisas.

  Ontem, pela madrugada, senti isso mas de uma forma dolorosa como se as coisas não tivessem uma canção mas um gemido. Não foi previsão do sismo, não tenho esse poder, foi apenas uma certa forma de sentir que me acontece muitas vezes. O sismo aconteceu pela  1 hora e 37 minutos, forte e implacável. Fiquei à espera que as paredes me caíssem em cima e a minha cabeça esvaziou-se de tudo. Não caíram. Se assim fosse eu não estaria aqui, naturalmente. A seguir, senti uma grande calma como se a Natureza tivesse vindo ao encontro de todas as pessoas para lhes lembrar que também ela sofre das suas agonias e que somos, com os nossos afazeres e as nossas mesquinhices, muito pequeninos.


marketing para internet a 18 de Dezembro de 2009 às 19:16
Toda a gente necessita de momentos
ps. gostei da gateria

Maria Araújo a 18 de Dezembro de 2009 às 20:05
Adorei este post.
Desde miúda, talvez pelo acordar aflito da minha mãe para nos defender de um sismo datado de 1969, que nunca mais fui a mesma a dormir.
Na madrugada de ontem, deitei-me tarde. Não conseguia dormir.
Senti-o. Sentei-me na cama pronta para mais réplicas e fazer algo que me pudesse defender.
Passou. E, por incrível que pareça, pensei " a natureza revolta-sse. Somos completamentte impotentes quando ela se manifesta!"
E sozinha neste canto, pela primeira vez ,meu coração não palpitou de medo.
E tenho pavor a sismos.
E uma hora depois adormeci.
Lindo post.
Parabéns pelo destaque. Sem este, nunca teria conhecido este blog.
Bj


berenice a 18 de Dezembro de 2009 às 21:27
Obrigada pelo elogio. Faz sempre bem saber que outras pessoas gostam daquilo que escrevemos.
Noutros tempos eu tinha tanto medo de sismos que todas as noites pensava neles e pedia a Deus que tivesse piedade de nós. Tontice! Deus não distribui estas coisas, não tem nada a ver com isso. Mas este é outro assunto. Actualmente não tenho tanto medo porque me sinto uma partícula do Universo e faço os possíveis para respirar com ele.

Beijo

Estores Electricos a 19 de Dezembro de 2009 às 03:36
Gostei do seu texto!
Foi só para nos lembrar que a integridade da nossa existência está completamente dependente da integridade de todo o nosso planeta... por vezes esquecemos isso!

Marta M a 19 de Dezembro de 2009 às 17:23
Olá
Conheço esse sentimento apaziguador de "sentir" uma casa, ou situação em solitári, no silêncio....É como se todos aqueles detalhes se tornassem visíveis, evidentes, apesar de lá estarem todos os outros dias.
O outro post sobre o sentimento de culpa inexplicável que invade os professores ao fim de semana, também é meu conhecido.
Gostei de a ler.
Marta M

berenice a 19 de Dezembro de 2009 às 17:44
Olá, Marta
Obrigada pelo estímulo.
Presumo que também é professora.
Não lhe estou a perguntar nada, entenda-se.
Contacte comigo quando lhe apetecer.

Até sempre
Abraço

Marta M a 20 de Dezembro de 2009 às 16:37
Sim, sou. Uma das 150 000!
Com orgulho e sacrifício e,,,boa vontade todos os dias ;)
Voltarei, claro.

palavrasdalma a 21 de Dezembro de 2009 às 00:41
Bonito texto, também gosto de sentir a alma das coisas, gosto do silêncio...gosto dos seus texto :)

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