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publicado por berenice, em 19.03.12 às 12:44

 Acabei de ler um livro lindíssimo. Precisei de dois dias, apenas. Chama-se "As Velas Ardem Até Ao Fim". Estou  muito grata ao autor porque me senti mais enriquecida com esta leitura e, ao mesmo tempo, esclareci uma dúvida que tinha acerca da amizade. Não existem amigos, dizem os desiludidos. Talvez tudo parta do facto de sermos demasiado exigentes com os nossos amigos, do conceito que temos de amizade. É certo que há sempre um que dá e cede mais. É a lei da Natureza, um tem de ser dominante. Nos casamentos também acontece desta maneira. Depois, vem a intransigência: ofendeu-me, traíu-me, falhou...nunca mais quero ver tal pessoa! Enfim, para gerir os afetos é preciso estar muito atento e ser sábio. O nosso amigo magoou-nos uma vez ou é um comportamento recorrente?

Em tempos tive uma amiga muito íntima que se chamava Lúcia e era minha colega na Faculdade. A Lúcia estava sempre disponível para mim: se eu estava doente ela levava-me o almoço e ia fazer - me companhia; nem se importava de ter de faltar a uma ou outra aula. Era uma rapariga que me protegia muito mais do que eu a ela. Por esse motivo me sentia bem por ser sua confidente nos amores, nos segredos de família, em episódios marcantes da infância. Era uma forma de retribuir. Contudo, algo bloqueava esta amizade não a deixando voar como aquele pássaro azul que corta os céus, cheio de felicidade: não suportávamos o sucesso uma da outra. Se uma nota de uma frequência era muito alta, se um elogio enfático era dirigido à outra, se aquele rapaz "tão interessante" não escondia a sua predileção, se numa conversa em casa de amigos uma de nós brilhava...nestas situações uma nuvem carregada pairava ameaçadora sobre as nossas cabeças, rondava os nossos corações. E ambas sabíamos. No entanto, limitávamo - nos a sorrir e a nossa amizade continuava....


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publicado por berenice, em 07.02.12 às 20:46

 Constato que as pessoas se ajudam em tempos difíceis. Não vou usar a palavra crise por estar esta já tão gasta que se lhe foram as solas e os bolsos de esburacados não conservam nada lá dentro. Não é que façam muita falta. As moedas são pesadotas e escassas, falo de 1 euro e 2 euros porque as mais pequenas ninguém as quer a menos que seja para compor um troco.

 Pois há uns dias, num parque de estacionamento de um supermercado, apareceu-me uma senhora que me disse, desolada, que à porta dos correios "robarem-me a minha pensãzinha"- uns gatunos sem escrúpulos. E pediu-me uma notinha. Fiquei um pouco indignada porque nunca ninguém me tinha pedido uma nota, mesmo pequenina. E dei-lhe uma moedas que caíram do alto da minha importância.

 Afinal vim a saber que o problema dela é bem mais dramático porque um corpo franzino daqueles não precisa de muita comida. Ela tem de levar dinheiro para casa porque se o não fizer, batem-lhe.

  Que fazer nestes casos se ela ama a pessoa que a agride?


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publicado por berenice, em 03.01.12 às 15:08

       Ele era engraçadíssimo a falar.

Quando iniciava uma frase gaguejava um pouco e sorria, um sorriso lindo. Penso que aquele sorriso tanto podia ser natural, decorrente do que ia dizer, como podia ser uma certa forma de conviver com a gaguez, fazendo humor com as suas próprias limitações.

      Se não repousasse tão longe e se me deixassem, deixaria lá gravada apenas uma palavra: obrigada.

      Obrigada pela infância que passamos juntos; obrigada por me amares tal como eu era; obrigada por me fazeres sentir especial pois sei que sem mim ficavas sem norte assim como eu o ficava sem ti.

      Ausentaste-te antes que este controverso ano de 2012 entrasse em palco. A minha intuição diz-me que a tua retirada te poupou a muitos sufocos pois estou expectante e receosa em relação ao que aí vem. As mudanças estruturais (e mesmo as conjunturais) sempre me inquietaram; neste aspeto eramos muito diferentes porque a sua natureza era aventureira. Mas eis que ouço a tua voz: "não tenhas medo, o que vier soará".


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publicado por berenice, em 01.12.11 às 14:11

 Dou por mim a pensar que o mundo cresceu de forma descomunal desde há uns quarenta anos a esta parte.

Se tivermos em conta que o objectivo supremo do ser humano deveria ser conquistar a felicidade, este avanço tecnológico que permitiu a transformação do nosso planeta numa aldeia, não favorece em nada essa conquista.

 Sei que as sociedades humanas evoluem em ritmos muito diferentes e, naturalmente, em certos pontos do planeta o Universo ainda é pequenino.

Mas é do meu mundo ocidental que estou a falar.

Na aldeia em que nasci, mesmo os adultos consideravam o seu pequeno pedaço de chão como o centro de tudo. O resto passava-se tão longe que a distância fazia esmorecer o bonito sentimento de sofrer com o sofrimento do outro. Diz que...ah! Pode lá ser? E daí..

 O consumo era fraco. A produção começava a disparar.

Havia quem pensasse que só existia uma marca de perfume: e afinal para quê mais se aquele fosse bom? Na mercearia, ao mesmo tempo que vendiam o colorau, a banha ou as batatas, começou-se a vender perfume, às porções, guardado num grande frasco. Confiava-se inteiramente no merceeiro.

- Quero dez tostões de perfume. E o merceiro agarrava no escadote e tirava com o máximo de cuidado, usando as duas mãos, o frasco que continha o líquido precioso e que por isso mesmo, residia alcandorado no cimo do armário.

- Cuidado! Diziam os presentes. E o homem, triunfante  e com o auxílio de um pequeno funil, deitava uma pequena porção de perfume no frasco que o freguês levava. Às vezes o frasquinho do cliente não estava muito limpo o que favorecia o vendedor. Não se via a cor, o brilho, a quantidade.

O precioso aroma mostrava-se nos funerais e nos bailes, orgulhoso por envolver as golas dos casacos e os cabelos ds senhoras. Estas ainda não tinham aprendido que por detrás das orelhas, só uma gotinha, nos pulsos, só um cheirinho. o Tabu, era o acessório final e por isso, lambia generosamente as roupas já compostas, os cabelos já alinhados.

 


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publicado por berenice, em 18.10.11 às 15:07

  Os portugueses andam, cada vez mais, a sofrer a agonia da depressão. A insegurança e o medo tomaram conta de nós. Já não há democracia que nos valha nem Constituição a que nos possamos agarrar. O documento em questão transformou-se num artefacto gelatinoso ao qual se dá a forma que se quer, distorcendo conteúdos e deixando espaços para decretos e despachos e artigos ao abrigo dos quais tudo é permitido: roubar nos salários e pensões, aumentar os impostos até estourar, cortar, cortar, cortar...e o problema da dívida ficará por resolver porque o consumo rarefaz-se, as falências irão suceder-se o desemprego alastrará como um fogo posto em dia de calor intenso com vento a soprar a favor.

 Que me perdoe quem ainda acredita nesta democracia mas não consigo deixar de me lembrar de uma frase de um grande historiador (isto nos tempos em que eu marrava até mais não História de Portugal para ensinar aos meus alunos): foi a acuidade da questão financeira que fez chamar para o governo.....isto em 1928, adivinha-se quem é. É que ainda quero acreditar que Abril não foi mais uma porta aberta para mais um longo período de miséria e tristeza.

 Entretanto, evitemos entrar em depressão e conservemos o autodomínio na medida do possível, obviamente.


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publicado por berenice, em 19.09.11 às 23:19

  Diz-se por estes tempos, que a felicidade é acessivel a todos e que se fundamenta exclusivamente em cada um de nós e, claro, na mãe natureza cujos milagres nos devem regozijar e cujo aroma devemos diariamente aspirar para que o dia comece cheio de energia e boa disposição. Obviamente, não se está a falar de situações em que um desgosto nos arrasa, uma decepção nos extingue, uma doença nos atormenta. Mas tudo é passageiro. O que é preciso é fé e um pouco de esforço para voltar a encontrar o equilíbrio. Pessoalmente, parece-me que há aqui uma tentativa de fugir a qualquer coisa que de há muito se anda a desenhar na nossa sociedade. Como podemos ser felizes sem o contacto com o outro? Sem a cumplicidade na contemplação de um por do sol?Sem a segurança que dá saber que em caso de aflição aquela amiga/amigo ou familiar nos vai socorrer sem se importar de faltar a um dia de trabalho? Por que não assumimos que somos uma grande família que já não é porque se desmoronou? Os casamentos são para seis meses, um ano, às vezes 40 mas nesse momento da vida finalmente o casal chegou à conclusão que já nada os une. As amizades são descartáveis, durou até que serviu. Por que temos medo de aceitar que o ser humano está a viver contra a sua natureza, isolado na sua ilha, agarrado ao computador, cheio de ressentimentos pelo sucesso do outro, cheio de mágoa pela sua solidão? Por que não tentamos resolver o problema da falta de amor que decorre de um individualismo exarcebado? Podíamos começar pelas crianças...

 Que se admire e venere a Natureza; que se namore com a lua e saúde o sol; que se abençoe a chuva e que nunca nos esqueçamos de admirar uma árvore e escutar o que o mar tem para nos dizer, nem que seja através dos búzios; que se respeite muito os animais e, se possível, ter dois ou três em casa (de preferência animais que tenham sido abandonados) e que se lhes dê muito e muito carinho. Mas, por favor, não vamos deixar que o ser humano deixe definitivamente de se amar e que as suas amizades ( muito fortes, aliás) sejam quase exclusivamente virtuais).


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publicado por berenice, em 25.07.11 às 22:22

 Finalmente fora de moda a cor chocolate. O que eu penei, Meu Deus, os sacrifícios que fiz em nome de uma tonalidade de pele que não me fizesse sentir diminuída no Verão, metida nos vestidos claros ou pior ainda, pretos como eu tanto gosto. Eu que sempre me dei mal com a praia, vinha de lá semi-morta e ao mesmo tempo agitada, ficava espamarrada ao sol para me bronzear e para que a minha auto-estima saltasse lá para o alto quando ocasionalmente me diziam "estás bem moreninha" o que  era muito raro- o mais comum era a observação, "Ih, ca branquinha!" ou então "estás branca como a cal", porra que exagero depois de tanto sofrimento e já o Verão ia alto.

Tudo começou na década de 50 e eu apanhei a de sessenta com esta infelicidade, este problema incrível que era nunca ir além da cor de pêssego.

 Agora grassa por aí a doença generalizada e em alguns casos aguda de querer ser muito magra e nunca se é magra de mais. Passa-se fome, come-se pão escuro com uma tirinha transparente de queijo sem um cheirinho de manteiga, que sensaboria!!! Come-se sopa sem batata, uns grelhadinhos só com salada e o vinho é proibido pois parece que engorda e faz criar celulite. E os ginásios? Carácter obrigatório! Aliás, creio que fazem subir o estatuto social. Quanto aos seios ainda não percebi se neste momento "se usam" pequenos e rijos, se grandalhões, a tranbordar do soutien. É-me indiferente. As pernas sei que se querem muito altas e delgadinhas "pernas até ao pescoço" como dizia um amigo meu, talvez para me fazer sentir mal pois sou baixa. Enfim, foi a isto que nos conduziu este tipo de sistema económico, de sociedade que se preocupa com coisas materiais, mesquinhas um tanto ridículas. Apetece-me perguntar: Para onde vamos?


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publicado por berenice, em 13.06.11 às 20:19

 As palavras deviam ser menos banalizadas. São tão bonitas as palavras que cada uma delas merecia encontrar uma espécie de lar, um ninho onde pudesse repousar à vontade. Aqui há tempos fui visitar uma amiga e, quando ela me abriu a porta, naturalmente sorri, ao que ela respondeu com as seguintes palavras:"tem os dentes amarelados isso será de quê?" Encolhi o sorriso e limitei-me a responder que o esmalte dos meus dentes sempre teve um tom amarelado. Bom, acho que estou a meter os pés pelas mãos porque aqui o que está em jogo é a ideia, essa sim devia ter sido reprimida ao invés de ser verbalizada. Então não devemos divulgar assim as ideias pequeninas como tenho que pregar este botão,ou parece que cheiro um pouco a suor, porque será, ou hoje já fui não sei quantas vezes à casa-de-banho (deve ter sido do excesso de ameixas)ou então (esta é deliciosa) tens que pintar o cabelo, já se nota uma risquinha.  Em primeiro lugar não se trata de um recado dado a uma ou a um invisual;depois parte-se do princípio que a pessoa da risquinha branca não tem espelhos em casa; e, finalmente, não se sabe se em termos orçamentais aquele mês foi apertadinho e para tudo (ou quase tudo) é preciso dinheiro. Não menos deliciosamente estúpido  é perguntar: cortaste a barba?!Ou então:hoje estás vestida de preto? Apetece responder: não, não vês que isto é vermelho? És daltónico (a)?

 

 

 Amigos, quis só dizer qualquer coisa como por exemplo, "ainda estou aqui".

 

 

Berenice


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publicado por berenice, em 30.05.11 às 20:18

  Há ruas e avenidas e becos, até, que são bonitos e cheios de graça.

Repare-se na Avenida da Liberdade, em Lisboa, como é bonita!

Ou a Praça da República em Coimbra, ou os Champs Élisées, em Paris.

Nunca tive a sorte de viver numa rua bonita: a primeira a que se pode chamar rua era a da Igreja, toda em calçada. Malhei duas ou três vezes  nessas pedras, deitando abaixo os meus tenros joelhos. Houve um dia, melhor dizendo uma tarde em que com uma amiga curiosa como eu, fui espreitar pelo buraco da fechadura da igreja o que raio faria o Padre lá sózinho. Talvez o senhor (o padre, não me refiro ao Senhor cujo corpo está condensado nas finíssimas hóstias), se apercebesse que havia por perto crianças a fazer traquinices ou talvez fosse só impressão nossa - pareceu-nos ouvir umas botas a ranger a toda a velocidade açodadas por uma batina que só podia ser preta e pernas para que te quero! Ali mesmo à porta da Igreja, caí e parti um dente lateral. Só há pouco tempo ( talvez uns seis anos) é que o dentinho foi reconstruído pelo Dr. Moura - obrigada Dr -, porque não gostava daquela falhinha que, apesar de já fazer parte de mim, me incomodava. A a segunda rua onde morei era uma estrada por onde a toda a hora passavam camiões que quase nos entravam pelo quarto dentro. A casa estremecia e, depois do sismo de 69 (creio que não estou em erro mas se estiver desculpem-me porque ando a ouvir com muita frequência Summer 69 na voz rouca de Bryan Adams), a minha mãe estremecia de terror embora eu não porque estava na Idade em que julgava que essas coisa más eram esporádicas e não se repetiam. Com isto tudo ainda não me esqueci das ruas, por ordem cronológica, não estou assim tão esclerosada ( que Deus me mantenha assim por amor do seu nome), e como ia dizendo a terceira rua onde vivi 5 anos era um nojo porque também era uma estrada por onde passavam camiões que iam para as Beiras, os nossos vestidos se eram claros ficavam da cor do fumo, refiro-me à Rua do Brasil em Coimbra, também quem me mandou a mim ir morar para lá, o que faltava eram casas que recebiam hóspedes, mas a verdade é que como a da Senhora Dona Amélia que Deus tem, duvido. Quando ela faleceu ainda fui morar uns meses para uma pequena moradia numa ruela íngreme cujo nome não me lembro mas que era pitoresca. A senhora, dona da casa, recebeu-me na sala, muito ajustada ao seu maple e muito amarela e eu pensei, aqui há coisa! Fiquei lá uma semana, nunca mais vi a senhora que me alugou o quarto que era da filha, quando solteira, e para onde eu subia por umas escadas com uma passadeira vermelha ao mesmo tempo que olhava para as fotografias que iam desfilando pelas paredes, de antepassados de bigodes retorcidos. Um dia a Carmo apareceu e anunciou-me que a mãe falecera já havia uma semana.


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publicado por berenice, em 22.04.11 às 23:18

     Hoje, sexta feira - santa, sinto -me com vontade de, definitivamente, me reconciliar com a vida.

É certo que nós somos o que pensamos, e que os nossos pensamentos vão, em parte, definindo a nossa vida dia após dia.

Os meus pensamentos são selvagens, confesso: atropelam-se, intensos como felinos em luta. São quase sempre maus, sobretudo quando acordo de manhã. E estes quadros "Goyanos"demoram umas boas horas a esbater-se. Já me tenho imposto a mim própria, tomar banho ao levantar antes mesmo de comer ou beber qualquer coisa: a água leva consigo energias negativas e eu sinto-me outra se o consigo fazer. O pior é que não tenho, com muita frequência, forças para combater com os tais pensamentos. Estes não estão organizados: todos têm a mesma dimensão e todos se situam no mesmo tempo cronológico; apenas o espaço é diferente, ligeiramente diferente. Puxam-se uns aos outros, por associação, os mais recônditos - já tidos como esquecidos, entram numa competição frenética com os mais recentes. Na faculdade um amigo, dizia-me que eu era "ruminante". Actualmente, escondo o mais possível esta minha maneira de ser porque tendo consciência dela, sei que cansa as pessoas. A mim, deixa-me exausta.


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