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publicado por berenice, em 05.02.16 às 17:28link do post | favorito

Considerações (...)

 

  Deixo correr o pensamento como um rio triste e constato que a vida, a vida do comum dos mortais, é muito pobre se comparada com os sonhos que nos movem na juventude, se comparada com os objetivos que traçamos para nós.

 A vida é pouco mais que nada. 

Eis-me aqui, sexagenária e estupefacta a questionar-me vezes sem conta:

"Mas que é feito do tempo, do meu tempo, que não me apercebi que passou numa corrida?"

"Onde estão os meus sonhos? Os meus projetos, onde estão?"

O tempo é implacável.

De há uns anos a esta parte comecei a ter vontade de não desmontar a árvore de Natal por achar que até ao seguinte era um pulinho e assim poupava trabalho.

Daqui a pouco é Maio outra vez.

Sim, nasci em Maio. É mais um ano.

Creio que só agora estou a começar a deixar de empurrar o mês de Maio como se ele fosse uma espécie de malfeitor que abre a porta da miha casa para me assaltar. E eu a resistir....

Esforço inútil.

Não vou resistir mais venha o que vier.

Quanta coragem é necessária para envelhecer só!

 

 


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publicado por berenice, em 21.05.15 às 17:13link do post | favorito

  Nem toda a gente sabe qual o cheiro e sabor das ruas desertas e das portas fechadas. Para conhecer isso é necessário chegar a uma razoável idade e estar completamente só.

 Voltamos a casa....

depois do passeio...

mais sós do que antes...

porque a nossa casa está sempre povoada com o nossa própria identidade e não se resume a uns móveis por ali distribuídos, ou a uma janela que dá para determinada paisagem, astro ou estendal de roupa.

Às vezes  mais vale não sair e ficar por ali com um livro, a ouvir música ou simplesmente a preguiçar. Feliz de quem aprende a vive consigo mesmo e nesse encontro, às vezes reconciliação, encontra a paz.

 


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publicado por berenice, em 12.07.14 às 18:50link do post | favorito

 E o mês de Julho repete-se com o seu calor tórrido.

Nestas longas tardes o pensamento espraia-se e a vontade de sair de mim é quase insuportável. Talvez fosse boa ideia vestir uma roupa larga e clara, calçar uns ténis e correr por aí. Mas não me apetece bater a calçada de ruas que conheço de olhos fechados e que me são antipáticas, ouvir o murmurar deste vento através das folhas das árvores que já nem contemplo por me parecerem sem vida. Amá-las é como que uma traição às minhas árvores e à canção do vento que é única na minha terra natal. Ás vezes dou por mim a  viajar e a repousar nos seus braços  até quase conseguir agarrar o suave murmurar das searas e sentir o aroma do Estio que faz estalar a terra. Uma terra que pulsa porque tem coração. Um coração que bate em compasso com o meu e me dá paz apesar da sede. É uma terra dura e clara mas também vermelha e solta dependendo dos lugares mas o que interessa é que tem voz. E é essa voz que se ergue e chama por mim.


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publicado por berenice, em 20.04.13 às 21:48link do post | favorito

 Possivelmente, ninguém vai ler nada disto; ainda por cima os meus "posts" não são apelativos, não têm cor nem imagem. Não é falta de imaginação e também não posso responsabilizar totalmente a falta de domínio técnico. Mas hoje tenho uma mensagem que me atrevo a soprar com o fôlego dos meus sessenta anos, como se de uma pétala de rosa se tratasse. A imagem - isto é um àparte -, deve-se ao facto de hoje ao fim da tarde ter tido o privilégio de aspirar até à alma, o perfume desabrochado de uma rosa que eu mesma plantei. Os tempos estão difíceis: quase apetece tomar à letra oApocalipse. Há muita gente com fome; muita gente a viver a prolongada agonia do desemprego; e depressões, e fobias e crises de pânico; há  muita gente a envelhecer só, sem um carinho, sem uma palavra de conforto de ninguém. com frequência se suicidam. Mas a solidão atinge também os mais novos: divórcios, filhos que emigram, amigos que escasseiam. Sempre tive medo que isto me acontecesse. E aconteceu.

 O que eu preciso partilhar é a maneira como me defendi do sofrimento causado pela solidão, daquele quase autismo forçado que sentimos quando vamos à rua e parece que está toda a gente combinada para não nos ligar nenhuma.

1) Tem um radiozinho? Ouça música ao deitar e quando se levanta;

2) Sabe fazer crochet, tricot, bordados? Inicie um trabalho, faça dele um projeto;

3)Tem um animal de estimação? dê -lhe muito carinho porque receberá em dobro;

4)Acredita em Deus? Então, quando a tarde cai e de repente fica crepúsculo e o peito estala, respire fundo, muitas vezes e faça uma oração; se tiver um Bíblia, melhor.Abra-a e leia um salmo;

5)Tem uma varanda ou um jardim? Uma simples janela? Não se deite sem ver as estrelas, sem saudar a lua, sem aspirar o misterioso perfume da noite;

6) Gosta de escrever? Arranje um caderno e escreva todos os dias o que lhe aconteceu de bom;

7) Se não tem dificuldade em andar, faça um passeiozinho de manhã e outro ao fim da tarde;

8) Se não tem dinheiro para fazer compras para si, vá na mesma, de vez em quando, a um centro comercial: observe as pessoas - elas esperam um olhar seu, ou mesmo um sorriso. Nunca se sabe se por detrás de uma fisionomia comum não estará uma grande dor;

9) Se se debate com falta de dinheiro, pode cuidar de si na mesma: pode adquirir um verniz de unhas com um euro ou mimar os seus pés com um bom banho de água morna e sal grosso.

 

Um grande abraço

 


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publicado por berenice, em 10.07.12 às 15:03link do post | favorito

 Nestas tardes longas de Julho o espaço e o tempo dilatam-se até onde a vista não chega; sempre foram tardes excessivamente largas para mim, tanto mais que as coisas perdem os seus contornos e assumem formas disformes de luz,  enoveladas, espessas, confusas. E eu gosto de cerrar as pálpebras e ouvir o murmurar do silêncio ou o sussurar do vento que traz notícias de países longínquos até que o sono chegue e me transporte para uma outra dimensão. Quando tinha a minha mãe comigo, ela chegava de mansinho e ajeitava a almofada. Eu olhava para ela e sorria; ela olhava para mim e devolvia-me um sorriso cheio de ternura. Depois, dormia um sono tranquilo porque ela estava por perto. Mas a minha mãe já não está, os braços dela não existem e o sorriso só o posso ler no meu pensamento. É por isso que, antes de adormecer, pronuncio alto a palavra mãe uma e outra vez. E nem um pequeno sinal de mãe; a palavra retorna para mim e o sobressalto vem porque me espanta o que este chamamento contém de súplica, de pranto e de amor. Contudo adormeço; porém, o despertar é doloroso, solitário. Percorro a casa como um fantasma e tudo está como deixei antes de adormecer. Nem uma melancia partida, nem uma limonada, nem umas papas de farinha (que sabor tinham, santo Deus!).

Como sonâmbula, pronuncio outra vez a palavra mãe e assim ando como uma folha desgarrada até que chegue o conforto da noite que traz a lua e as estrelas, que traz a paz e um ténue pressentimento que ela está cá em casa, em todos os cantos, em todos os armários, em tudo o que toco, enfim.


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publicado por berenice, em 19.03.12 às 12:44link do post | favorito

 Acabei de ler um livro lindíssimo. Precisei de dois dias, apenas. Chama-se "As Velas Ardem Até Ao Fim". Estou  muito grata ao autor porque me senti mais enriquecida com esta leitura e, ao mesmo tempo, esclareci uma dúvida que tinha acerca da amizade. Não existem amigos, dizem os desiludidos. Talvez tudo parta do facto de sermos demasiado exigentes com os nossos amigos, do conceito que temos de amizade. É certo que há sempre um que dá e cede mais. É a lei da Natureza, um tem de ser dominante. Nos casamentos também acontece desta maneira. Depois, vem a intransigência: ofendeu-me, traíu-me, falhou...nunca mais quero ver tal pessoa! Enfim, para gerir os afetos é preciso estar muito atento e ser sábio. O nosso amigo magoou-nos uma vez ou é um comportamento recorrente?

Em tempos tive uma amiga muito íntima que se chamava Lúcia e era minha colega na Faculdade. A Lúcia estava sempre disponível para mim: se eu estava doente ela levava-me o almoço e ia fazer - me companhia; nem se importava de ter de faltar a uma ou outra aula. Era uma rapariga que me protegia muito mais do que eu a ela. Por esse motivo me sentia bem por ser sua confidente nos amores, nos segredos de família, em episódios marcantes da infância. Era uma forma de retribuir. Contudo, algo bloqueava esta amizade não a deixando voar como aquele pássaro azul que corta os céus, cheio de felicidade: não suportávamos o sucesso uma da outra. Se uma nota de uma frequência era muito alta, se um elogio enfático era dirigido à outra, se aquele rapaz "tão interessante" não escondia a sua predileção, se numa conversa em casa de amigos uma de nós brilhava...nestas situações uma nuvem carregada pairava ameaçadora sobre as nossas cabeças, rondava os nossos corações. E ambas sabíamos. No entanto, limitávamo - nos a sorrir e a nossa amizade continuava....


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publicado por berenice, em 07.02.12 às 20:46link do post | favorito

 Constato que as pessoas se ajudam em tempos difíceis. Não vou usar a palavra crise por estar esta já tão gasta que se lhe foram as solas e os bolsos de esburacados não conservam nada lá dentro. Não é que façam muita falta. As moedas são pesadotas e escassas, falo de 1 euro e 2 euros porque as mais pequenas ninguém as quer a menos que seja para compor um troco.

 Pois há uns dias, num parque de estacionamento de um supermercado, apareceu-me uma senhora que me disse, desolada, que à porta dos correios "robarem-me a minha pensãzinha"- uns gatunos sem escrúpulos. E pediu-me uma notinha. Fiquei um pouco indignada porque nunca ninguém me tinha pedido uma nota, mesmo pequenina. E dei-lhe uma moedas que caíram do alto da minha importância.

 Afinal vim a saber que o problema dela é bem mais dramático porque um corpo franzino daqueles não precisa de muita comida. Ela tem de levar dinheiro para casa porque se o não fizer, batem-lhe.

  Que fazer nestes casos se ela ama a pessoa que a agride?


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publicado por berenice, em 03.01.12 às 15:08link do post | favorito

       Ele era engraçadíssimo a falar.

Quando iniciava uma frase gaguejava um pouco e sorria, um sorriso lindo. Penso que aquele sorriso tanto podia ser natural, decorrente do que ia dizer, como podia ser uma certa forma de conviver com a gaguez, fazendo humor com as suas próprias limitações.

      Se não repousasse tão longe e se me deixassem, deixaria lá gravada apenas uma palavra: obrigada.

      Obrigada pela infância que passamos juntos; obrigada por me amares tal como eu era; obrigada por me fazeres sentir especial pois sei que sem mim ficavas sem norte assim como eu o ficava sem ti.

      Ausentaste-te antes que este controverso ano de 2012 entrasse em palco. A minha intuição diz-me que a tua retirada te poupou a muitos sufocos pois estou expectante e receosa em relação ao que aí vem. As mudanças estruturais (e mesmo as conjunturais) sempre me inquietaram; neste aspeto eramos muito diferentes porque a sua natureza era aventureira. Mas eis que ouço a tua voz: "não tenhas medo, o que vier soará".


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publicado por berenice, em 01.12.11 às 14:11link do post | favorito

 Dou por mim a pensar que o mundo cresceu de forma descomunal desde há uns quarenta anos a esta parte.

Se tivermos em conta que o objectivo supremo do ser humano deveria ser conquistar a felicidade, este avanço tecnológico que permitiu a transformação do nosso planeta numa aldeia, não favorece em nada essa conquista.

 Sei que as sociedades humanas evoluem em ritmos muito diferentes e, naturalmente, em certos pontos do planeta o Universo ainda é pequenino.

Mas é do meu mundo ocidental que estou a falar.

Na aldeia em que nasci, mesmo os adultos consideravam o seu pequeno pedaço de chão como o centro de tudo. O resto passava-se tão longe que a distância fazia esmorecer o bonito sentimento de sofrer com o sofrimento do outro. Diz que...ah! Pode lá ser? E daí..

 O consumo era fraco. A produção começava a disparar.

Havia quem pensasse que só existia uma marca de perfume: e afinal para quê mais se aquele fosse bom? Na mercearia, ao mesmo tempo que vendiam o colorau, a banha ou as batatas, começou-se a vender perfume, às porções, guardado num grande frasco. Confiava-se inteiramente no merceeiro.

- Quero dez tostões de perfume. E o merceiro agarrava no escadote e tirava com o máximo de cuidado, usando as duas mãos, o frasco que continha o líquido precioso e que por isso mesmo, residia alcandorado no cimo do armário.

- Cuidado! Diziam os presentes. E o homem, triunfante  e com o auxílio de um pequeno funil, deitava uma pequena porção de perfume no frasco que o freguês levava. Às vezes o frasquinho do cliente não estava muito limpo o que favorecia o vendedor. Não se via a cor, o brilho, a quantidade.

O precioso aroma mostrava-se nos funerais e nos bailes, orgulhoso por envolver as golas dos casacos e os cabelos ds senhoras. Estas ainda não tinham aprendido que por detrás das orelhas, só uma gotinha, nos pulsos, só um cheirinho. o Tabu, era o acessório final e por isso, lambia generosamente as roupas já compostas, os cabelos já alinhados.

 


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publicado por berenice, em 18.10.11 às 15:07link do post | favorito

  Os portugueses andam, cada vez mais, a sofrer a agonia da depressão. A insegurança e o medo tomaram conta de nós. Já não há democracia que nos valha nem Constituição a que nos possamos agarrar. O documento em questão transformou-se num artefacto gelatinoso ao qual se dá a forma que se quer, distorcendo conteúdos e deixando espaços para decretos e despachos e artigos ao abrigo dos quais tudo é permitido: roubar nos salários e pensões, aumentar os impostos até estourar, cortar, cortar, cortar...e o problema da dívida ficará por resolver porque o consumo rarefaz-se, as falências irão suceder-se o desemprego alastrará como um fogo posto em dia de calor intenso com vento a soprar a favor.

 Que me perdoe quem ainda acredita nesta democracia mas não consigo deixar de me lembrar de uma frase de um grande historiador (isto nos tempos em que eu marrava até mais não História de Portugal para ensinar aos meus alunos): foi a acuidade da questão financeira que fez chamar para o governo.....isto em 1928, adivinha-se quem é. É que ainda quero acreditar que Abril não foi mais uma porta aberta para mais um longo período de miséria e tristeza.

 Entretanto, evitemos entrar em depressão e conservemos o autodomínio na medida do possível, obviamente.


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